sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

trote - prática medieval que persiste.

[post escrito para o Sem Pauta de novo - dá um desconto, estou de férias!]

Com o início do período letivo, já temos alguns temas-padrão que sempre retornam ao nosso dia-a-dia. O transito volta a ser caótico e insuportavelmente lento nos horários de pico. As papelarias anunciam descontos espetaculares nas listas de materiais, tentando atrair quem ainda não fez suas compras. Algumas lojas, e até mesmo shoppings, fazem liquidações relâmpago de encher os olhos de qualquer shopaholic. Infelizmente, também tomamos conhecimento de diversos casos de violência. Não a violência normal, medo íntimo de todo cidadão brasileiro que põe os pés para fora de casa. Como se essa violência não bastasse, somos colocados em contato com violências nas universidades, praticadas por estudantes imaturos.

Fevereiro mal começou, e já traz casos bárbaros estampados nas telas de TV e nas notícias de jornais. Estudantes que tiveram seus corpos queimados por produtos químicos, humilhação pública, coma alcoólico somado a ferimentos pelo corpo causados por chicotadas e pontapés, alunos sendo obrigados a rolar em lonas cheias de excrementos e animais em decomposição. Essa é a imagem que uma parte dos estudantes têm de uma recepção amistosa a seus colegas de curso. Sim, quem poderia desejar uma recepção mais simpática? Aposto que Edison Tsung Chi Hsueh se divertiu horrores, dez anos atrás, enquanto era afogado. Quando morreu, então, deve ter sido um momento sublime. Mas, felizes mesmo, estão os veteranos que lhe mataram. Primeiro motivo: estão vivos; é tão fácil morrer, hoje em dia, não é, Edison? Ah, você não pode me responder, porque foi A-S-S-A-S-S-I-N-A-D-O. Segundo: porque, em 2006, foram absolvidos pelo STJ; que beleza é a vida, não é mesmo? Fazer o que se deseja e sair impune, mesmo que custe a vida de outrem, quer coisa melhor?

Se a culpa dos trotes violentos não é dos estudantes, de quem é então? Das instituições de ensino, por serem pouco rígidas quanto a essa questão e por não punirem os culpados. Punir? Essa também é a função da Justiça, meu Brasil. Então, a Justiça também é culpada. Mas isso não inocenta os animais responsáveis por trotes desumanos, não lhes tira a culpa.

O trote universitário é uma prática medieval, que data do ano de 1342, na Universidade de Paris. Em 1492, na Alemanha, alunos tinham os rostos esfolados, tinham que comer fezes de animais, bebiam vinho com urina e juravam repetir o 'ritual' com os próximos que entrassem na Universidade Heidelberg. Nojento? Cruel? Considerando-se os padrões de higiene e de violência da época, essas práticas são iguais às que pipocaram na mídia neste ano. A selvageria medieval continua.

Em meio à tamanhas demonstrações de imaturidade e demência, por parte de pessoas que, por conseguirem entrar em uma instituição de ensino superior, deveriam apresentar algum tipo de inteligência, vemos também pessoas lúcidas. Nem todos os trotes são assim. Muitos trotes, de fato, promovem uma certa integração entre os estudantes antigos e novos no curso, permitindo que os desinteressados não participem, sem nenhuma consequência futura. Minha experiência pessoal contou, sim, com muita sujeira, com pés descalços no asfalto, para pedir dinheiro. Mas isso acabou trazendo uma integração com meus colegas de curso e, posteriormente, com meus veteranos, enquanto nos divertíamos às custas do dinheiro conseguido no sinal.

Existem também os Trotes Solidários. Ao entrar na Universidade Federal de Minas Gerais, foi feito um no curso de Comunicação, pela CRIA UFMG Jr. Atividades como o bingo humano me fizeram conhecer alguns colegas de curso e professores, enquanto uma arrecadação de alimentos foi promovida, beneficiando uma Instituição que precisava de ajuda.

A barbárie depende de quem a comanda. Cabe a quem planeja o trote decidir se quer ser reconhecido como exemplo de inteligência e maturidade, por pensar uma ação de integração e, possivelmente, de solidariedade, ou se quer aparecer nos jornais como criminoso e, até mesmo, como assassino.

11 comentários:

Carol disse...

Adorei o blog [que, by the way, encontrei na comunidade do Orkut].

Quanto aos trotes, eu já achava uma palhaçada antes de entrar na faculdade. Só a idéia de alguém estar superior a mim só porque nasceu um ano antes [ou vários, no caso daqueles repetentes] não fazia sentido nenhum. Boicotei o meu trote numa boa [que, por besteira da faculdade foi no final do período - por isso eu já conhecia a minha faculdade muito melhor do que muito veterano]. Quanto a queimar os outros e forçá-los a comer cocô... eu devo ser muito velha, porque eu não consigo achar graça nisso...

Enfim, voltarei mais vezes! =) Bjs

[www.caroljardim.com]

Aline disse...

Nossa, em pelo 2009 ainda acham graça em fazer trote...

Acho um absurdo...

Até os trotes beneficentes acho forçado...

Beijos !!!

Jessie. disse...

não acho que trotes solidários, ou aqueles que só envolvem tinta (e algumas substâncias moderadamente nojentas) sejam ruins.
Me diverti no trote, mas de fato foi melhor quando passou - a pressão psicológica é muito ruim e mil vezes pior!
Acho lamentável que ainda existam práticas violentas hoje. As pessoas deviam aproveitar o momento pra se divertir.

Post novo lá no blog, xuxu xD
http://sucha-small-world.blogspot.com

H. R. Silva disse...

Trotes são uma forma de socializar a galera. Sou totalmente a favor, sério. Essas babaquices que rolam por ae são praticadas por, na minha opinião, pessoas mentalmente desequilibradas ou inconsequentes. Sem radicalismo é tudo muito divertido, uma experiência única na vida e que todos deveriam passar. Desde quando deixamos de ser crianças, supõe-se, sabemos diferenciar o certo do errado. Se não, a justiça que cuide. É assim fora da Universidade e deve ser assim dentro também. Qual o limite? Bom, aí depende do calouro... rsrs

Fábio disse...

Discordo de você, Jessie: a pressão psicológica é a parte mais divertida! hehe... :)

O trote é uma coisa legal, desde que seja feito de forma legal. Tintas, brincadeiras e até as coisas fedorentas - por mais ruins que sejam - são boas no final. Tenho lembranças boas do meu trote, como também tenho lembranças boas do trote que aplicamos (né, Anna e Jessie? :).

Boa parte das pessoas que dizem não gostar dos trotes (não sei se é o caso de vocês duas, Aline e Carol, não estou julgando) são bastante hipócritas neste ponto: vão contra, mas na hora do vamos ver são as primeiras a chegarem lá. Eu não nego que é divertido, desde que seja feito de forma consciente. É uma nova fase da vida, e o trote até que funciona como um ritual de passagem.

Agora, ser responsável nessa hora é pré-requisito...

Fábio disse...

Aliás, completando: essa foto está bem "Onde está Wally?", hein? :)

O Frango... ® disse...

Não me achei na foto =/

Eu sou a favor do trote como forma de confraternizar com as pessoas, tiops foi o nosso. E a pressão psicológica é realmente a melhor parte...

Anna, você devia postar textos diferentes aqui daqueles que você posta no sem pauta... prontofalei

Jessie. disse...

eu me achei! ;)

anna carolina disse...

frango, eu posto textos diferentes, só os dois últimos foram iguais.
e esse blog serve para reunir TODOS os meus textos, não sei se você já percebeu. o post sobre a 'mudança editorial' fala isso.

Fabio Santos disse...

não acho enem nunca achei interessante trote, é inútil, e as vezes nem um pouco sadio !

Fabio Santos disse...

não acho enem nunca achei interessante trote, é inútil, e as vezes nem um pouco sadio !